O objetivo desta coluna não é somente fazer comentários sobre exposições, mas também ser um espaço de conversa sobre artes visuais, informal e informativo, rompendo com certo elitismo que costuma prevalecer nas abordagens da arte. Para começo de conversa, então, uma questão se coloca: de que estamos falando quando falamos de arte?
Embora esta possa parecer uma conversa filosófica sofistica, que não conduz a nada de concreto, penso que vale a pena colocá-la como base da discussão. Primeiramente concordarmos que a arte nos remete para um aspecto de nossa humanidade – a prática simbólica – que nos diferencia dos demais animais do mundo. Entretanto, nem toda prática simbólica é considerada artística.
O que define essa diferenciação que engloba uma pequena fatia de produtos é sua inserção em um circuito específico. Isso porque, para que uma realização seja considerada artística, deve passar pelo processo de incorporação a um sistema de arte. Assim, galerias, museus e escolas de arte são instituições onde se legitima um determinado objeto ou evento como artístico; o crítico, o professor, o artista, o curador e outros especialistas são os atores que, nestes espaços, recebem o poder de realizar esta legitimação. A categoria arte estabelece um padrão de valor superior, menosprezando, como artesanato ou artes menores, as demais produções que ficam fora dessa classificação. Mesmo aqueles que não participam deste sistema, aceitam e respeitam suas regras como válidas para toda a sociedade, pois ele, ainda que excludente e elitista, tem oferecido à humanidade uma série de produções que encantam e fascinam.
A maioria dos autores no âmbito da Sociologia e da Economia reconhecem, hoje, o desenvolvimento do que denominam capitalismo cognitivo ou capitalismo cultural. Segundo eles, o capitalismo clássico fabrica objetos de onde extrai a mais-valia ou lucro. O capitalismo cultural produz desejos, crenças e valores, fazendo com que o lucro seja gerado mais no marketing de um produto do que em sua produção fabril. Nesse novo modelo capitalista, o elemento chave é o trabalho imaterial1 que cria e modifica o ambiente ideológico e cultural do consumidor, produzindo uma relação social que transforma o usuário. No capitalismo clássico a produção de objetos obtém seu lucro na sua comercialização; no capitalismo cognitivo ou cultural, é a fabricação de desejos e crenças que gera a maior riqueza. A fábrica produz objetos, a empresa produz um mundo. Assim, o valor de um tênis encontra-se mais no trabalho intelectual que elabora o conjunto de idéias que garante que ele representa um estilo de vida, do que na sua produção física. A mercadoria resultante do trabalho intelectual não se acaba no consumo, mas se alarga e transforma o ambiente ideológico e cultural do consumidor.
O sistema da arte pode ser considerado um precursor desse capitalismo cultural, pois ele criou a crença na arte como um valor e em todo o conjunto de instituições que a sustentam. As origens desse processo encontram-se no alvorecer do mundo moderno, no século XIV, na Itália, quando determinados pintores e escultores, por meio de um conjunto de relações que os ligava aos mecenas e literatos, passaram a desfrutar de um poder sobre suas criações e uma posição dentro da sociedade que os diferenciava dos simples artesãos. Antes disso, não havia essa diferenciação – os produtores não detinham nenhum tipo de poder de autoria sobre suas obras – elas eram valorizadas de forma semelhante a todos os demais tipos de afazeres manuais. A categoria arte que conhecemos é bastante recente na história da humanidade. Ela surgiu como resultado de um trabalho imaterial, que permitiu a determinados produtores desfrutarem de um statusquo especial a partir do Renascimento. Importante instituição neste processo de formação foram as Academias de Belas Artes (Florença 1562, Paris 1648), que se tornaram responsáveis pela formação dos artistas, diferenciando-os, definitivamente, dos artesões. Ligada às elites econômicas (burguesia e nobreza) e políticas (reis e clero), a arte também cumpriu um importante papel de dominação simbólica, difundindo sob a forma de imagens valores e padrões culturais.
Na segunda metade do século XVIII estabeleceram-se as três grandes disciplinas – Estética, História da Arte e Crítica de Arte – que, atuando estreitamente interligadas, foram decisivas na construção daquilo que hoje conhecemos como arte. Alexander Baumgarten criou a Estética como ramo específico da filosofia, dedicado àquilo que ele denominava sublime. Johann Winckelmann, na esteira dos grandes movimentos de revalorização da cultura greco-romana, inaugurou uma História da Arte apoiada nos padrões estéticos desse período para estabelecer critérios valorativos. Finalmente, Denis Diderot, com seus comentários sobre os Salões de Belas-artes, deu início ao que, hoje, se considera Crítica de Arte, no sentido de uma avaliação da produção em desenvolvimento. Assim, ao final do século XVIII, na Europa Ocidental, estava completamente instituído o modelo acadêmico de Sistema de Arte. Não por acaso, quase tudo que re-conhecemos como arte encontra-se nos grandes museus de Florença, Roma e Paris. Este sistema foi importado para a América, o longo do século XIX, com a criação das diversas Academias de Belas Artes que proliferaram nos novos países que se tornavam independentes. Elas estabeleceram muitas das condições e dos conceitos de arte com que a maioria das pessoas ainda lida. Geralmente, quando falamos de arte, embora sem nos darmos conta, é dessa concepção introjetada que partimos.
De lá para cá muitas mudanças ocorreram dentro do sistema, adaptando-o às revoluções da economia, da sociedade e do pensamento cultural. Da modernidade à contemporaneidade, entretanto, as questões básicas de elitismo, de dominação e de excludência, que estavam evidentes nas origens de sua institucionalização, não foram completamente eliminadas. Pelo contrário, esses aspectos apresentam-se de forma difusa, tornando mais complexo e difícil seu questionamento. Difícil, porém não impossível, e constantemente buscado, pois, se a arte é uma forma de dominação social, não se apropriar dela é se deixar dominar.
Do jornal Sul21
Embora esta possa parecer uma conversa filosófica sofistica, que não conduz a nada de concreto, penso que vale a pena colocá-la como base da discussão. Primeiramente concordarmos que a arte nos remete para um aspecto de nossa humanidade – a prática simbólica – que nos diferencia dos demais animais do mundo. Entretanto, nem toda prática simbólica é considerada artística.
O que define essa diferenciação que engloba uma pequena fatia de produtos é sua inserção em um circuito específico. Isso porque, para que uma realização seja considerada artística, deve passar pelo processo de incorporação a um sistema de arte. Assim, galerias, museus e escolas de arte são instituições onde se legitima um determinado objeto ou evento como artístico; o crítico, o professor, o artista, o curador e outros especialistas são os atores que, nestes espaços, recebem o poder de realizar esta legitimação. A categoria arte estabelece um padrão de valor superior, menosprezando, como artesanato ou artes menores, as demais produções que ficam fora dessa classificação. Mesmo aqueles que não participam deste sistema, aceitam e respeitam suas regras como válidas para toda a sociedade, pois ele, ainda que excludente e elitista, tem oferecido à humanidade uma série de produções que encantam e fascinam.
A maioria dos autores no âmbito da Sociologia e da Economia reconhecem, hoje, o desenvolvimento do que denominam capitalismo cognitivo ou capitalismo cultural. Segundo eles, o capitalismo clássico fabrica objetos de onde extrai a mais-valia ou lucro. O capitalismo cultural produz desejos, crenças e valores, fazendo com que o lucro seja gerado mais no marketing de um produto do que em sua produção fabril. Nesse novo modelo capitalista, o elemento chave é o trabalho imaterial1 que cria e modifica o ambiente ideológico e cultural do consumidor, produzindo uma relação social que transforma o usuário. No capitalismo clássico a produção de objetos obtém seu lucro na sua comercialização; no capitalismo cognitivo ou cultural, é a fabricação de desejos e crenças que gera a maior riqueza. A fábrica produz objetos, a empresa produz um mundo. Assim, o valor de um tênis encontra-se mais no trabalho intelectual que elabora o conjunto de idéias que garante que ele representa um estilo de vida, do que na sua produção física. A mercadoria resultante do trabalho intelectual não se acaba no consumo, mas se alarga e transforma o ambiente ideológico e cultural do consumidor.
O sistema da arte pode ser considerado um precursor desse capitalismo cultural, pois ele criou a crença na arte como um valor e em todo o conjunto de instituições que a sustentam. As origens desse processo encontram-se no alvorecer do mundo moderno, no século XIV, na Itália, quando determinados pintores e escultores, por meio de um conjunto de relações que os ligava aos mecenas e literatos, passaram a desfrutar de um poder sobre suas criações e uma posição dentro da sociedade que os diferenciava dos simples artesãos. Antes disso, não havia essa diferenciação – os produtores não detinham nenhum tipo de poder de autoria sobre suas obras – elas eram valorizadas de forma semelhante a todos os demais tipos de afazeres manuais. A categoria arte que conhecemos é bastante recente na história da humanidade. Ela surgiu como resultado de um trabalho imaterial, que permitiu a determinados produtores desfrutarem de um statusquo especial a partir do Renascimento. Importante instituição neste processo de formação foram as Academias de Belas Artes (Florença 1562, Paris 1648), que se tornaram responsáveis pela formação dos artistas, diferenciando-os, definitivamente, dos artesões. Ligada às elites econômicas (burguesia e nobreza) e políticas (reis e clero), a arte também cumpriu um importante papel de dominação simbólica, difundindo sob a forma de imagens valores e padrões culturais.
Na segunda metade do século XVIII estabeleceram-se as três grandes disciplinas – Estética, História da Arte e Crítica de Arte – que, atuando estreitamente interligadas, foram decisivas na construção daquilo que hoje conhecemos como arte. Alexander Baumgarten criou a Estética como ramo específico da filosofia, dedicado àquilo que ele denominava sublime. Johann Winckelmann, na esteira dos grandes movimentos de revalorização da cultura greco-romana, inaugurou uma História da Arte apoiada nos padrões estéticos desse período para estabelecer critérios valorativos. Finalmente, Denis Diderot, com seus comentários sobre os Salões de Belas-artes, deu início ao que, hoje, se considera Crítica de Arte, no sentido de uma avaliação da produção em desenvolvimento. Assim, ao final do século XVIII, na Europa Ocidental, estava completamente instituído o modelo acadêmico de Sistema de Arte. Não por acaso, quase tudo que re-conhecemos como arte encontra-se nos grandes museus de Florença, Roma e Paris. Este sistema foi importado para a América, o longo do século XIX, com a criação das diversas Academias de Belas Artes que proliferaram nos novos países que se tornavam independentes. Elas estabeleceram muitas das condições e dos conceitos de arte com que a maioria das pessoas ainda lida. Geralmente, quando falamos de arte, embora sem nos darmos conta, é dessa concepção introjetada que partimos.
De lá para cá muitas mudanças ocorreram dentro do sistema, adaptando-o às revoluções da economia, da sociedade e do pensamento cultural. Da modernidade à contemporaneidade, entretanto, as questões básicas de elitismo, de dominação e de excludência, que estavam evidentes nas origens de sua institucionalização, não foram completamente eliminadas. Pelo contrário, esses aspectos apresentam-se de forma difusa, tornando mais complexo e difícil seu questionamento. Difícil, porém não impossível, e constantemente buscado, pois, se a arte é uma forma de dominação social, não se apropriar dela é se deixar dominar.
Do jornal Sul21
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